Porque os Cristãos Evangélicos hoje estão cada vez mais descredibilizados?

A IGREJA HOJE ESTÁ:

9 de junho de 2012

AÇÃO SOCIAL E O EVANGELISMO


AÇÃO SOCIAL E O EVANGELISMO

Leitura bíblica

Lucas 17.11-19
Mateus 5.14-16
Gálatas 6.10

Introdução

Qual o relacionamento entre o Evangelismo e a Ação Social?

É comum medir o sucesso de um projeto social evangélico pelo número de pessoas que se converteram como resultado dessa ação social. Membros de igrejas até reclamam do desperdício de recursos quando a ação do ministério social não resulta nestas conversões.

Sem dúvida nenhuma, como vemos no ministério de Jesus, boas obras em favor dos outros podem estimular as pessoas a louvarem a Deus, e às vezes, como no caso do leproso samaritano, isso é evidenciada por um “voltar para Jesus”, “uma conversão”. Cristo chama os seus discípulos a serem sal e luz não somente para iluminar o mundo e salgar a sociedade, mas também para que “as pessoas veem as boas obras e glorifiquem ao Pai que está nos céus”.

Porém, embora este resultado seja muito desejado, ele não deve ser visto como a única meta da ação social da igreja. Nesta reflexão exploraremos alguns perigos em conceituar a Ação Social como uma mera ferramenta evangelística, e ao mesmo tempo descobriremos outros motivos bíblicos muito importantes e interessantes para desenvolver ações sociais com outras intenções, além a de levar as pessoas a Cristo.


Reflexão central

1. Perigos

O primeiro perigo em ver a Ação Social como uma ferramenta evangelística é que essa é uma atitude que pode parecer, e muitas vezes chega a ser, interesseira. Não é incomum ouvir a reclamação de que tal igreja só ajuda os pobres para fisgá-los, que de fato os crentes não estão pre-ocupados com as necessidades e sofrimentos do povo, mas só em agregar mais gente para as sua igreja. Infelizmente, conversas em algumas reuniões de planejamento de ministério social, das nossas igrejas, só serviriam para reforçar esta impressão.

Ao contrário disso, Jesus cuidava das pessoas até sabendo, na sua sabedoria divina, que não todos os auxiliados, curados ou libertados o seguiriam. Na nossa leitura bíblica só um dos leprosos teve a decência de agradecer, sem nem pensar em conversões! Jesus alimentou e curou milhares de pessoas, mas ao longo do seu ministério agregou apenas setenta e tantos seguidores fieis. Se a nossa motivação para praticar Ação Social for só evangelística então sofreremos muita frustração, mesmo se consigamos atingir o mesmo (baixo) índice de ‘sucesso’ que o nosso Senhor!

O segundo perigo de um programa de Ação Social que visa como alvo principal a conversão dos não-crentes, é que a igreja passa a não preocupar-se com os problemas sociais dos próprios irmãos. Quem não já ouviu a reclamação de que os recursos da igreja estão sendo usados para beneficiar os ‘incrédulos’, enquanto irmãos necessitados estão sendo esquecidos? Já presenciei este fato sendo usado como um argumento contra ação social. Pois é, uma ação social que não contempla as necessidades dos irmãos é fruto da visão de que Ação Social é uma ferramenta evangelística, pois os irmãos já são salvos, então não precisam mais ser fisgados.


2. Via positiva

Podemos observar, no entanto, que esse não é o padrão bíblico. Paulo exorta os crentes em Gálatas: “enquanto temos oportunidade, façamos bem a todos, mas principalmente aos domésticos da fé.” (6.10) Observem que Paulo não escreveu, “somente aos domésticos da fé”, então este versículo não pode ser utilizado para justificar uma ação social apenas para cuidar dos ‘fieis’. Ao mesmo tempo, esse versículo torna impossível uma ação social onde o evangelismo é a meta principal.

Esta questão fica mais clara ainda nos eventos relatados em Atos 6.1-7: É verdade que os apóstolos, particularmente, não queriam abandonar a pregação da palavra para cuidar da distribuição de comida (v2). Porém é igualmente verdade que ao ouvir as reclamações dos gregos (vv1-3) os apóstolos estavam reconhecendo que eles tinham errado em negligenciar as viúvas. Mesmo se não for responsabilidade específica deles, na visão dos apóstolos era INDISPENSÁVEL ter na igreja pessoas CONSAGRADAS para cuidar dos irmãos necessitados (vv3-6).  Na estrutura da igreja em Jerusalém, a ação social não era secundária ao evangelismo, os dois ministérios eram necessários e consagrados. É interessante ainda observar que o resultado da resolução deste problema social foi que a Palavra de Deus continuava a crescer, e multiplicava-se o número de discípulos (v7)! Isso demonstra que uma ação social íntegra, não interesseira, na vida de uma igreja, pode atrair pessoas ao Senhor.

3. O ser humano é feito na imagem de Deus

Quando refletirmos sobre o fato de o ser humano ser criado na imagem de Deus (mulheres e homens – Gen 1.27) percebemos que existem muitos motivos, independentes da questão do evangelismo, para praticarmos ações e justiça sociais.

Primeiro, pensando sobre o caráter do Deus na imagem do qual fomos criados, e a quem nós servirmos na igreja, podemos observar em muitas passagens que o amor e justiça fazem parte do caráter de Deus. Por exemplo: 1 João 4:8; Êxodo 22.21-27; 23.6-10; Levítico 19:9-16, 34; 25:1-55; Deuteronômio 10.12-20; 14.28-15.18; 24.14-18 [Nota ao pregador: selecione anteriormente quais destas passagens lerá durante a pregação].

Acredito que nenhum irmão presente necessita ser lembrado dos preceitos bíblicos para nós refletirmos o caráter de Deus no nosso viver e conviver com os outros. Mas esta questão vem da raiz da criação do ser humano: Podemos afirmar que, para ser fiel à imagem de Deus na qual fomos criados, devemos refletir, entre outras coisas, o seu caráter de amor e justiça.  Esta verdade é refletida em Jeremias 22.13-16, 31.34 e 1 João 3.16-18, 4.8.

Por conseguinte, as nossas vidas e igrejas devem demonstrar amor prático e pelejar pela justiça.

Segundo, se todo ser humano é feito na imagem de Deus, então é inadmissível que não façamos algo para que esta imagem não continue manchada por sofrimento e injustiça. Quando Jesus curou uma mulher no sábado, ele deixou bem claro aos que reprovaram as suas ações, que livrar um ser humano sofrido levava precedência sobre o observar das leis religiosas sobre o sábado (Lucas 13.15-17). Nesse caso, a lei que o próprio Deus estabeleceu sobre descansar é secundária à necessidade de aliviar sofrimento humano.

A existência de sofrimento e injustiça na sociedade humana é tão revoltante para Deus que O levou a pronunciar, através dos profetas, a rejeição dos louvores do seu povo (Isaías 58, Amos 5.21-24).

Meditando profundamente nas palavras de Isaias 58 chego à conclusão que, enquanto existirem igrejas e crentes que não se engajam na luta para a justiça de Deus nas relações sociais humanas, construindo comunidades saudáveis, nós compartilharemos uma parcela da culpa pelas vidas que morrem vítimas da fome, da corrupção, da violência, da ignorância, do preconceito, da doença e do pecado social. Corremos o risco de Deus rejeitar os nossos louvores, não importa a qualidade do grupo de louvor ou da coreografia.
4. Olhando pelo outro lado

Uma perspectiva diferente sobre o relacionamento entre Evangelismo e Ação Social vem quando percebemos que evangelizar pode também ser um ato de Ação Social. Isso é porque uma vida transformada em Cristo pelo perdão dos pecados, e pela ação re-criativa do Espírito Santo, pode ter um impacto social tremendo, só pela mudança efetuada na pessoa e na sua comunidade. Vemos isso na vida de Zaqueu (Lucas 19.1-10). A sua conversão o levou a restituir o que tinha roubado (justiça) e a doar metade dos seus bens aos pobres (amor). Quando tais pessoas levam a ética do Reino de Deus para dentro da sua profissão e para a sua prática de cidadania, o efeito na comunidade é multiplicado ainda mais.

Vemos o impacto social da transformação efetuado pelo Espírito Santo na vida do convertido em Gálatas 5.13-25. Vemos esse potencial de transformação social ao compararmos as características pessoais que Paulo considera inapropriadas para aqueles que pertencem a Cristo, com o caráter que ele considera o fruto de viver pelo Espírito Santo. O comentarista MacGorman divide as “obras da carne” (19-21) em três categorias: Sexo, Culto e Relacionamentos Sociais; observando que uma vida regida pelos desejos da carne traz desgraça para a vida familiar, a vida espiritual e os relacionamentos sociais. Muitos de nós, hoje, podemos testemunhar pessoalmente a esta trágica verdade; testemunhas, e vítimas (ou às vezes culpados) como somos, da destruição efetuada por bebedeiras, violência e outros males nas nossas comunidades.

Por outro lado, as qualidades positivas que Paulo denomina “Fruto do Espírito” (22-23) são tão benéficas para a sociedade, que não existe lei contra elas. Por isso que vale a pena estar constantemente alerto e preparado para o conflito entre os desejos da carne e do Espírito que existe em nós (17). Assim poderemos viver o Fruto do Espírito em famílias e comunidades de amor e justiça.

Conclusão

Através desta reflexão podemos chegar à conclusão que não existe entre o evangelismo e a ação social uma questão de relativa importância no trabalho da igreja ou na vida humana.  Os dois respondem ao mandamento de amar e procurar o bem do outro. São ministérios separados, interligados por fazerem parte da missão da igreja dada por Deus.

Evangelismo diz respeito ao resgate do indivíduo do pecado e da sua transformação. Ação social diz respeito ao resgate e transformação da sociedade dos efeitos do pecado.

As duas ações são requeridas pelo Senhor Jesus dos seus discípulos. Nisso, o discipulado (ministério que segue naturalmente um evangelismo bem sucedido) deve incluir preparação dos seguidores de Jesus para se engajarem nestes resgates e transformações sociais. Cada um de nós precisa aprender a perguntar-se “Eu estou refletindo as características de Deus, de justiça e amor, nas minas atitudes e ações?”

Ao mesmo tempo em que boas ações de compaixão e justiça podem trazer pessoas ao Senhor, não fazer Ação Social pode ser considerado um ato anti-evangelístico, pois muitos são afastados do evangelho quando não percebem o amor de Cristo na ação dos crentes. O perigo é que deixemos muitas pessoas morrer sem Cristo, pois estas podem olhar para a igreja, procurando o amor de Deus que tanto declaramos, e não encontrá-lo.

Necessitamos nas nossas igrejas tanto um evangelismo quanto uma ação social bem desenvolvidos. Assim, não só almejamos tirar o indivíduo do pecado, mas ainda mais, tirar o pecado (e os seus efeitos) do indivíduo e da sociedade.

Mark E. Greenwood
Abril 2008

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aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que jorre para a vida eterna.
João 4:14

E quem tem sede, venha; e quem quiser, tome de graça da água da vida.
Apocalipse 22:17
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